quinta-feira, 6 de julho de 2023

A jornada de Thanatos é o relato de um anti-herói?




     Ctônio é uma obra de engenharia reversa, portanto, a jornada do personagem se mostra desde o começo como uma busca obscura e pessoal. Nas primeiras páginas tomamos conhecimento dos conflitos que assolam a mente de Thanatos, e este, pretende resolvê-los, custe o que custar. Não demora para que o leitor sinta-se envolvido pela melancolia do protagonista, pois somos avisados que há uma relação muito estreita entre nossas insatisfações interiores e as do deus da morte. 
     A ambientação é dinâmica, e a fluidez temporal causa certo desconforto, mas isso é proposital. Ctônio é uma obra que mescla o clássico dos gregos antigos com as peculiaridades de outros panteões como: as montanhas da China, as terras secas e quentes da África, seja na cultura egípcia ou mesmo nos recantos dos Orixás. Há também uma dose de eventos que se desenrolam no politeísmo hindu e saltos que nos carimbam a passagem nas gélidas planícies nórdicas e na fé em construção dos cristãos. Tudo isso é curiosamente dosado e temperado com uma leve redução Cyberpunk, tempero esse que identifica e imprime sua marca pessoal, segundo o autor. 
     Sobre a engenharia reversa, isso tem a ver com o método literário de L.M. Dourado. Ele não queria excluir de sua receita, a velha e boa substância da famosa jornada do herói. Contudo, até onde podemos inferir, Thanatos, não é exatamente um herói, talvez carregue algumas nuanças. Desta maneira, é possível que o leitor o qualifique numa categoria menos exigente, e assim, o pense como um anti-herói. Nesse banquete poético, fica explícito que as provocações de Thanatos ao leitor e seu modo de interagir com os outros personagens é seu maior desafio. Desafio esse, que nos reconta o passado como uma voz inconsciente. 
     No término de uma leitura tão imersiva, a ideia é que os leitores sintam que algo deixou de ser dito e que muito daquilo que conquistaram, torna-se para eles, um patrimônio, algo que deva ressoar em nossas histórias pessoais, ainda que no terreno das ideias. É nesse ponto que surgirão através da leitura, uma coleção de questões particulares, e se isso de fato acontecer, pode-se dizer que o objetivo da obra foi alcançado.     
     
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quarta-feira, 5 de julho de 2023

Ctônio é um livro disruptivo?




     Não! Definitivamente, Ctônio não é um livro disruptivo e explico por quê. De forma alguma, quando me lancei nesse desafio, minha intenção era a de sinalizar através da obra, algum tipo de tendência que divergisse daquilo tudo que me foi valioso como referência criativa ou moral. Há quem faça uma leitura presentista do livro e queira por instantes, sugerir que seu modo ousado e galhofeiro de dar voz ao deus da morte, soe como disruptivo. Entretanto, não, não tem como ser, visto que a obra é mais como um tipo de retorno, do que uma aparente quebra de estilo. Isso não só desqualificaria o esforço como seria um apelo patético e ofegante aos ideais mais sórdidos de uma visão limitada ao secularismo. 
     Por vezes, a poética e o cuidado com as palavras, escolhidas com esmero para dirigir o olhar do leitor para "dentro" da literatura, jamais poderia ser visto como um mero gracejo estilístico, desses que hoje são muito comuns, algo do tipo verborrágico e sem sentido, como se nessa ausência de sentimento fôssemos encontrar um sentido maior. Logo, isso está longe de ser disruptivo porque se assim o fosse, a obra mesma não careceria de um projeto a ser concretizado em três livros. Para tal fim, bastaria um, já que distopias assim tão disruptivas não tendem a durar, tampouco se alongarem tanto. 
     O fato é que se Ctônio existe hoje, é porque ainda há muito para ser dito. Especialmente, essa forma, seu estilo, uma ficção, ou romance como sugerem alguns, é sem sombra de dúvidas, uma epopeia que depende de outros tantos clássicos que no cerne da narrativa, são revistados, recontados e fortalecidos. Se em alguns episódios podemos sentir nuanças de algo desmantelador, é notório que carregam uma razão de ser, e nada que traz um compromisso assim tão nobre, deixaria sua arquitetura quase barroca, resvalar para um universo amorfo e sem significado, somente para afirmar que possui um.
     É provável que algumas estratégias possam confundir, como as que foram usadas para descrever e remontar atmosferas tão oníricas como a Grécia arcaica ou o consultório de Freud em Viena. Todavia, conforme a tensão dos personagens desnuda seus íntimos e, seus conflitos se tornam mais viscerais, podemos notar que a obra mais resgata do que pretende desconstruir. 
     Portanto, ao leitor que aceita o célebre convite de fazer parte do universo de Ctônio, reserva-se todo um espaço de releituras, onde os detalhes são a chave para uma caixa invisível na qual é perceptível que em seu interior existe uma agulha e uma linha cuidadosamente deixadas para que a vida das palavras permita uma sutura real e simbólica entre o mito e seus mais secretos contornos. As verdades mentirosas no texto são um artifício para emanarem verdades psicológicas de cunho coletivo, e disso vemos e presenciamos o exame de uma história única contada com elementos familiares.      



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terça-feira, 4 de julho de 2023

Técnica narrativa em Ctônio: Memórias do Deus da morte.




     A obra Ctônio: Memórias do Deus da morte, segue um percurso narrativo sui generis, pois, apesar de dar intensa prioridade ao narrador em primeira pessoa, o leitor tem a oportunidade de experienciar sensações muito singulares ao longo da trama. Um dos diferenciais, é a maneira como o autor, L.M. Dourado cria uma relação ambígua através das memórias de Thanatos e, simultaneamente, permite que o leitor ocupe um lugar de destaque à medida que se torna cúmplice do personagem. 
     Isso se deve ao recurso usado para estabelecer um diálogo abstrato com as estruturas inconscientes e as referências muito ricas que ficam disponíveis para serem estabelecidas as comparações. Vez por outra, surgem ainda, muitos questionamentos de ordem moral, estética e acerca da natureza da ideia de verdade. Embora o texto tenha sua identidade estabelecida pela profundidade com que o tema da morte é tratado, há momentos muito pessoais, quase em tom confessional, onde o leitor não se pega apenas pensando sobre o que lê, mas em contradição com as próprias respostas às perguntas feitas pelo deus da morte e suas poéticas intenções. 
     Outro diferencial na leitura, está fixado nos episódios em que o personagem principal está ausente. É comum que nos perguntemos; como isso é possível num livro em que o texto é marcado pela presença da primeira pessoa do discurso? Ora, eis aqui outro mecanismo, uma vez que em tais momentos da história, o leitor é "tomado emprestado" por outros personagens que assumem a voz da narrativa e, ainda que se mantenha o formato, quem oscila é a dissonante personalidade de novas percepções. Neste caso, a presença de Ares, o deus da guerra, Hipnos o deus do sono e o próprio Crânio da morte, adquirem uma intenção ímpar e tecem suas versões dos eventos. 
     Essa estratégia de sugestão caótica é proposital, já que em meio a tantas desventuras, tal como num louco debate de sentimentos e conflitos de poder, o todo da obra se ordena por vontade própria e cinge uma gigantesca colcha de retalhos. Por fim, a obra é coesa mesmo soando difusa, logo, o resultado estético se torna o perfeito convite para o mergulho sem precedentes. Parada obrigatória para os amantes da ficção, mitologia, filosofia e literatura universal.   



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quarta-feira, 21 de junho de 2023

O que são os Sete Artefatos Divinos, presentes na obra Ctônio: Memórias do Deus da morte?



     Saudações leitores, hoje decidi fazer um breve resumo sobre esse tema abordado em meu livro e sua importância para a trama. A princípio, o livro irá mencionar os artefatos no episódio, "os sete ofícios", pois, além dos artefatos, serem objetos de natureza física, a posse deles está ligada a sete eventos que Thanatos, deverá mergulhar no tempo e adquirir pessoalmente.
     Por serem objetos muito importantes e dispersos no tempo, não há como o deus da morte conseguir todos de uma vez, sem contar que nenhum foi, por assim dizer, algo fácil de se pegar. Cada objeto está centralizado a um elemento ou personagem específico de cada era em que a Morte precisa roubar, conquistar ou dar os seus pulos para conseguir. Nessa fase da obra, Thanatos já está consciente que sua jornada não será fácil, mas como é do tipo que não pretende desistir e, motivado por sua sede de vingança e libertação, abdicar das missões, ficou fora de questão.
     Logo, os artefatos são: O Cálice Sagrado, o Arco e as cinco flechas de Kama, deus hindu do amor, as lágrimas da deusa nórdica, Freya, o Espelho de Oxum, deusa Ioruba, o leite do seio da divina Guan Yin, e por fim, o coração de Ísis, deusa egípcia. 
     Aqui, eles não estão na ordem em que são adquiridos na obra, a ideia é deixar que o leitor tenha a oportunidade de ter essa experiência literária e encontre por si, os significados mais profundos de cada objeto. Todavia, tais artefatos são indispensáveis para Thanatos, ele deve entregá-los para Hécate, deusa da lua, rainha de todas a bruxas, somente assim, ela poderá combinar os elementos com seu poder e realizar o feitiço supremo. 
     Na obra, o feitiço é de suma importância para conferir a Thanatos, o poder de matar os deuses. Você, caro leitor, já pode imaginar o que o deus da morte pretende? Quem será o personagem que tanto se opõe ao deus da morte e seus objetivos? E por que, mesmo o deus da morte, deseja um fim para tudo aquilo que ele próprio significa?  

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CtÔnIo: Memórias do Deus da morte, um livro imperdível!


     




    Em 2021, foi lançado pela Editora Viseu, o livro Ctônio: Memórias do Deus da morte de L.M.Dourado, primeiro de uma trilogia ainda em andamento. A ficção mitológica é uma obra que dá voz a Thanatos, deus grego da morte como personagem principal. Thanatos está farto de seu destino e num tom poético e visceral, decide desafiar os deuses e todos que cruzam seu caminho. 
     Aquilo que começa com um drama pessoal, ganha uma camada extra quando o personagem se descobre parte de uma trama ainda mais profunda e sorrateira, desencadeada pelo seu irmão gêmeo Hípnos. O deus do sono domina todas as almas humanas e divinas, fazendo-as sonhar uma realidade pessoal e impedindo que a história tenha um rumo natural. 
     Diante de tais armadilhas sórdidas e eletrizantes reviravoltas, Thanatos se vê entre uma escolha e sua tendência inata em seguir sua sina. O deus da morte compra a batalha e se torna aliado e cúmplice de Hécate, deusa da lua, onde juntos, eles irão sacudir as estruturas do universo. Recheado de cenários clássicos e uma atmosfera única, Ctônio é uma narrativa inquietante. Cria uma relação ímpar entre o texto e o leitor, onde este, é responsabilizado e testado sobre suas crenças, medos, dúvidas e se depara com os mistérios do inconsciente. 
     Os personagens são vivos e se deixam absorver com grande facilidade, a leitura é fluída e dinâmica, podendo trazer memórias e sentimentos muito peculiares. A presença de personalidades da literatura como: Drácula, Freud, Nietzsche entre outros, mesclados com criaturas e deuses de diferentes mitologias, é um diferencial, pois, sugere um universo que oscila entre o caos e a beleza. É nesse cenário que a poesia se rende às pitadas fúnebres e irônicas do gênio da morte. A ação é constante, cada episódio desvela contornos muito bem detalhados de recortes históricos e mitológicos, resultado de anos de pesquisa e dedicação do autor. 
     A costura metanarrativa fica a cargo dos elementos filosóficos somados ao todo da obra, nela, podemos nos deparar com a virulência da alma humana e seus sutis sintomas de lucidez. Por fim, a obra nos conquista por nos aproximar de questões elementares postas em xeque e, nossa capacidade de lidar com os conflitos que recebem nome e endereço nos corredores mais obscuros de nossos sonhos.    


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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023






"A efêmera imaginação, preenche o vácuo da provisória ignorância". Implica supor, que em tese, nossa imaginação é vasta, todavia, evanescente. Não há como dominá-la, isso porque, é nossa imaginação quem dita as regras.
A ignorância é um refúgio para dois tipos de almas, e ambas, são igualmente equidistantes em sentido. Uma, se perde na vaidade, outra, prisioneira da ingenuidade. A provisoriedade de tal estado, segue perseguindo sua redenção. Inverter essa tensão é parte de um destino virtuoso, pois, somente os mais ávidos pelo saber, logram boas chances de cura para tão habitual comodidade.
Ao ler, percebemos que pouco sabemos, assim como preconizava Sócrates. Afinal, é a sabedoria, um latifúndio de consciência acerca de nossas deficiências e misérias. A merecida ou esperada ascese, não é garantia, ela nos cala ou nos torna papagaios a repetir frases feitas e, cantilenas amargas revestidas em andrajos tecidos por mentira.
Devemos ler, ler muito, ainda que tal leitura nos ensine mais como não ser... Ler nos afasta de um futuro previsto, uma realidade vizinha, um triste evento ou uma condenação programada. As facilidades torpes e débeis do mundo atual, convergem para um desfecho trágico. Um fim não percebido, um tempo em que a humanidade sequer perceberá, que pariu uma geração de inúteis.

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2023



     Saudações leitores, desejo a todos um excelente 2023. Quero iniciar o ano falando um pouquinho sobre a leitura como fonte de profundidade. É sabido que o volume de nossas leituras cotidianas está diretamente ligado ao nosso repertório intelectual. Aquilo tudo que acumulamos em diversas áreas do conhecimento, nos ampara e nos prepara para lidarmos de forma adequada com o universo das informações. 
     Todavia, sabemos que é importante diferenciar "conhecimento" de "informação" e "sabedoria". A informação, hoje, muito valiosa, parece ter tomado conta do cenário, afinal, as interações diárias com a mesma, condicionam nossa mente a ficar o tempo todo em torno das novidades. O problema é que esse comportamento pode nos dar a falsa sensação de que estamos adquirindo conhecimento. Por conhecimento, entendo, não somente a quantidade de informações absorvidas, mas a capacidade que desenvolvemos ao longo desse processo. Logo, o conhecimento não é apenas quantificador, ele tem um caráter qualitativo muito importante, o qual, tende a evoluir para uma eventual sabedoria, somente se bem articulado. 
     É nesse ponto que pretendo reafirmar sobre a atitude do leitor acerca de uma busca de qualidade, seja por questões de interesse, desenvolvimento pessoal, ou profissional, o que nos garantirá um acervo muito mais sólido e constante. Sabemos que ler qualquer coisa é melhor que nada, embora, a seleção criteriosa de nossas leituras é semelhante a um bom itinerário de exercícios físicos, do contrário, tendemos a evoluir apenas uma parte do corpo, com a inteligência, é a mesma coisa. 
     Por fim, entendo que largura difere de profundidade, e que tal imersão é uma dádiva que só podemos obter através de um severo compromisso com os clássicos. Entendo que muitos poderão torcer o nariz quando o convite à leitura se trata de um clássico. Existem muitos preconceitos acerca das obras clássicas, contudo, tal ideia deriva de um desejo emergente de se obter muito com pouco, ou seja, uma ingênua substituição da informação pelo conhecimento. Então, vamos relaxar, não se sinta na obrigação de ler este ou aquele clássico, deixe o clássico escolher você. Leia algumas resenhas, pesquise sobre os temas de seu interesse e depois escolha quem você quer se tornar por meio da leitura que pretende fazer.     

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É possível explicá-los em poucas palavras? Eles mesmos serima capazes de fazer isso? Tanto Nietzsche quanto Freud, são personaldiades icônic...