Há um personagem incomum em Ctônio; é o Crânio da Morte. Embora Thanatos,
seja o protagonista da obra, seu Crânio é uma entidade independente. Há
diálogos mentais entre os dois. O Crânio ainda, estabelece uma conexão com o
leitor em momentos ímpares do texto. O objetivo é oferecer elementos ao
entendimento do todo.
Além de estratégia literária, o Crânio ocupa o lugar
indivisível da consciência moral do deus da Morte. Comporta-se com um
inconsciente suspenso. É aquele amigo imaginário da infância que cresceu e se
tornou mais que uma projeção. “Quando o confidente se torna juiz, pouco temos a
esconder...” - Thanatos é provocativo! Seu humor é ácido e por vezes, seu
relato poderá ser indigesto. Assim ele foi escrito, é assim que ele deve ser.
Ao leitor, reserva-se cautela, pois, longe do que é comum, é preferível que o
odeie. Exato, esse, inclusive, é um pedido do ceifador logo de início: - Você
precisa me detestar! Mas com elegância, por favor... faça isso como num drama...
É curioso que ao longo da leitura, uma relação de amor e ódio seja construída,
e em muitos momentos, é possível que a balança do juízo, não saiba dizer para
que lado o prato vai pender com maior intensidade.
Eis o fascínio que toda a
literatura tem a nos ofertar. Afinal, o que seria de nós se ouvíssemos os dois
lados de uma mesma história? Logo, temos o primeiro ponto de vista sobre o
passado, esse que nos chega através dos livros e dos arquivos. Numa segunda
camada, reserva-se as memórias do deus da Morte. Será como uma viagem através
de um espelho, mas não um espelho qualquer. Imagine que esse reflexo se
desprende do vazio de uma lagoa profunda, ou um espectro que se desenlaça do
nodoso cabo da foice que finda uma vida. Preparados?
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